Dia 3 – De Pamplona à Lorca

36KM – não aguentaria nem mais 1km!

Escrever durante a viagem não é simples porque além de termos que baixar vídeos e fotos, nem sempre contamos com uma boa Internet. Mais fotos vocês encontram em nosso Instagram @santiagobuencamino e em breve postaremos nossos vídeos no YouTube.

Um novo dia, um novo período de superação na difícil e íngrime subida do Alto do Perdão. Novamente, falo aqui como uma bicigrina, e todos os desafios que enfrentei, mas nunca me desfazendo ou diminuindo, muito pelo contrário, dos desafios enfrentados por todos que percorrem à pé. Esse foi um dia onde pensei especialmente naquela mãe, e naquele bebê que encontrei em Roncesvalles…

Estava muito quente, o que de certa forma nos parecia mais uma benção, dado os relatos que já havia lido sobre a subida em dias de chuva e vento. Esse não foi nosso problema. Por outro lado, a mistura de sol de 40 graus e pedra, numa subida sem fim, é algo que até então não havia me dado conta de o quanto poderia ser penoso, e em como seria capaz de superar.

Não sei se comentei nos posts anteriores, estávamos pelo menos 20km fora do nosso planejamento inicial de quilometragem, e todos os dias tentávamos ajustar, mas dado o terreno que estávamos encontrando, parecia cada dia mais difícil voltarmos à programação original.

A saída de Pamplona é uma delícia, super agradável, por entre bosques e praças. Muita gente correndo e andando de bicicleta logo cedo. Logo em seguida, passamos por um visual lindo, ainda nos arredores da cidade, mas sabíamos que o dia nos reservava uma grande subida.

Izur Menor fica 5km saindo de Pamplona, depois passamos pelo povoado de Zariquiegui, uma vila que possui poucas casas, numa única rua e já em direção ao Alto do Perdão. Nesse vilarejo, encontras-se a fonte de Gambellacos, mais conhecida como a fonte da Reniega. Diz a lenda que o demônio, nesse mesmo lugar, ofereceu água a um peregrino sedento, desde que renegasse à Deus, Virgem Maria e à Santiago. O Peregrino, já moribundo, desprezou a água e rezou, esperando que o demônio desaparecesse, até que em seu lugar, apareceu água cristalina que saciou sua sede.

Iniciamos então nossa subida, pesada, ora pedalando, ora empurrando, e por vezes descansando e admirando o lindo visual abaixo de nós.

Estávamos felizes, radiantes com a beleza do lugar, uma fonte aqui, outra ali, e sempre parando para reabastecer a água. Essa é uma dica importante, dado que nunca sabemos o que nos espera.

Nunca despreze uma fonte, certifique-se de que ela está com água, jogue a sua fora, e reabasteça seu estoque.

A chegada ao Alto do Perdão, ao lado das Eólicas é algo indescritível. Nessa hora, começou um vento providencial, e ficamos ali algum tempo, absortos naquela paisagem.

Encontramos um Brasileiro, o primeiro da viagem, chamava-se Pedro, e era um Peregrino inverso, estava vindo de Santiago, até a França. Segundo ele, morava na Espanha, e resolveu mudar-se para Paris, e pensou, porque não ir caminhando? Rimos um pouco, contamos algumas histórias e seguimos nossos caminhos.

Iniciamos então nossa descida, essa sim, um capítulo à parte. As pedras pareciam ter sido  retiradas e colocadas uma a uma equilibrando-se e prontas para testar nossa habilidade, nós com as bikes e os Peregrinos com seus bastões.

Era íngrime, difícil e ainda haviam distrações que nos tiravam a atenção e nos proporcionavam uma nova chance de cair. Totens feitos de pedra emolduravam a descida, fiquei me perguntando sobre o significado deles, mas confesso que não descobri.

A vista também era linda,  e assim seguimos até Lorca, uma linda e acolhedora cidade, onde usufruímos de uma excelente noite de sono e ótima comida. Assim como em todas as cidades, ficamos no Albergue Municipal, e mais uma vez, nenhum incidente, muito pelo contrário, tudo parecia conspirar a nosso favor.

Essa noite me recusei a ver o mapa da próxima etapa, já estava arrependida em não ter vindo à pé. Planejei uma viagem pedalando, apreciando, mas até agora, me sentia como se estivesse numa prova dessas, onde nossa capacidade física e mental são testadas até o fim.

A parte boa, é que dormimos, e a capacidade regenerativa do sono é algo que só percebemos quando chegamos ao fim do dia da forma que estávamos chegando.

Dormimos cedo, acordamos ótimos e prontos para mais um dia. O sono tem a capacidade de apagar nossas dores.

Até amanhã, ou até o dia que encontrar um novo bom wi-fi !

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